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Encenadora e dramaturga russas condenadas por “apologia do terrorismo”

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A produção de uma peça que alegadamente faria a apologia do terrorismo foi o pretexto para a justiça russa condenar esta segunda-feira a longas penas de prisão a encenadora Evguenia Berkovich, de 39 anos, e a dramaturga Svetlana Petriychuk, de 44 anos, que irão agora passar seis anos numa colónia penal.

Figuras proeminentes da nova vaga do teatro russo, as duas mulheres, que estavam detidas desde Maio de 2023, foram sentenciadas por um tribunal de Moscovo por “apologia do terrorismo.” Além de seis anos de prisão, ficam também ambas proibidas de “administrar sites” durante três anos após a sua libertação. Isto tudo porque, em 2020, fizeram uma produção de Finist, o Bravo Falcãouma peça sobre terrorismo adaptada do conto de fadas homónimo e inspirada nas histórias de mulheres russas e de países da ex-União Soviética que foram recrutadas pela Internet para se juntarem ao Estado Islâmico.

Segundo as próprias, a peça pretendia criticar o terrorismo. Ainda assim, segundo o O jornal New York Timesque por sua vez cita a publicação russa RBK, a acusação declarou que Petriychuk tem “ideologias islâmicas extremamente agressivas” e uma “opinião positiva” do Estado Islâmico. Já Berkovich teria “convicções ideológicas relacionadas com a justificação e propaganda do terrorismo”.

Ambas mantiveram sempre a sua inocência, afirmando que nunca tiveram qualquer relação com o Islão. “Nunca participei em quaisquer formas do Islão, nem radical nem a outra. Tenho respeito pela religião do Islão, e não sinto nada senão condenação e repugnância por terroristas”, disse Berkovich.

O espectáculo, que teve financiamento público e não foi considerado ofensivo nas várias fases de produção, foi bem recebido na altura, tendo ganhado dois prémios teatrais Máscara de Ouro, que são oficialmente apoiados pela Câmara de Moscovo e pelo Ministério da Cultura russo.

Evguenia Berkovich foi aluna de Kirill Serebrennikov, encenador perseguido pelo regime, e ela própria sempre criticou a invasão da Ucrânia. “Vou ficar na Rússia até ao dia em que houver risco de prisão”, disse em entrevista ao O mundo no fim de 2022, antes de ter sido detida. O jornal francês lembra agora essa citaçãoexplicando ainda que a encenadora juntava poemas com “versos anti-guerra” aos espectáculos que fazia, gozando com as autoridades do país, e também dedicava um minuto de silêncio no fim de cada encenação em honra das vítimas da guerra com a Ucrânia.

O caso contra as duas começou a ser montado muito depois da estreia original, quando um actor de teatro pró-Kremlin publicou mensagens na rede social russa VK.com a queixar-se de que uma peça encenada por uma “liberal anti-guerra” chegara à sua cidade de Nizhny Novgorod, e a acusar o espectáculo de ter “compaixão não dissimulada pela Ucrânia e ódio pelo governo actual”. Esse actor foi uma das testemunhas do processo, que, menciona o O mundodisse no tribunal ter achado o espectáculo “destrutivo e desestabilizador”, mas atrapalhando-se depois com perguntas mais profundas sobre o teor da peça.

Ainda segundo o O mundoa defesa da encenadora terá pedido ao juiz e à procuradora responsável pela acusação para verem uma gravação em vídeo do espectáculo, mas ambos recusaram a sugestão alegando que não tinham tempo e que não precisavam de ver a peça para perceber que defendia o terrorismo.

Ó O jornal New York Times afirma que 99% dos julgamentos na Rússia resultam em condenação. E Berkovich e Petriychuk estão longe de ser as primeiras figuras do mundo das artes perseguidas e encarceradas pelo regime de Putin por exercerem a sua liberdade de expressão. Em Março, Lucy Stein, das Pussy Riot, foi condenada, apesar de estar fugida do país, a seis anos de prisão. A razão oficial era que espalhara “informações falsas”. No mesmo mês, vários artistas viram as suas casas e estúdios serem alvo de buscas e apreensões pelos serviços secretos, todas relacionadas com o julgamento do artista Piotr Verzilov, também ligado às Pussy Riot.



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